Uma viagem educativa: “Apreciando a descoberta de outras formas de viver e pensar.”

william-james-cr-el
William James © Emilia Lahti

Foi acompanhando o trabalho de Emilia Lahti, pesquisadora de psicologia positiva, idealizadora de SISU, expressão finlandesa que denota determinação, persistência, resiliência, que conectei-me com um pensamento de William James, pela primeira vez.

William James escreveu que temos escondida, dentro de nós, energia que não conhecemos até que realmente precisamos dela – e que crises, muitas vezes, oferecem uma oportunidade única de explorar essa força mais profunda.”

— Emilia Lahti

William James é considerado o “pai da psicologia”, nos Estados Unidos – e um dos filosófos mais influentes. Ele esteve, no Brasil, quando estava com 23 anos de idade, na época, estava iniciando o segundo ano do curso de medicina, na Universidade de Harvard quando um de seus professores, Louis Agassiz, famoso naturalista, de origem suíça e um dos maiores cientistas, residentes nos Estados Unidos (diretor do Museu de Zoologia Comparada), se tornou responsável pela organização de uma expedição, com destino ao Brasil.

William James ofereceu-se para participar da Expedição Thayer, como voluntário coletor. O livro O Brasil no Olhar de William James – Cartas, diários e desenhos [1865-1866] nos possibilita acessar os desafios que o jovem norte-americano, com seu tom empático e reflexivo, precisou enfrentar. Em termos científicos e diplomáticos, a expedição caracterizou-se como um empreendimento retrógado, mas, os traços apontados como fundamentais à forma de William James ver o mundo não foram contaminados pela posição política e ideológica de seu professor e organizador da expedição, Louis Agassiz, que tinha relação com os defensores do racismo.

Segundo ele mesmo, a jornada de 8 meses, no Brasil, foi uma viagem educativa; seus biógrafos a consideram um marco para sua decisão de se dedicar à filosofia. As bases do desenvolvimento de suas futuras teorias a respeito do funcionamento da mente e de sua relação com o mundo, baseadas na empatia, suas considerações relacionadas às diferentes apreensões da realidade, começaram a se desenvolver no decorrer de sua experiência, no Brasil, com o que viu e viveu. Suas anotações, constituem registros peculiarmente empáticos, contendo suas impressões, sentimentos e observações dos lugares que conheceu e das pessoas com as quais conviveu, no Rio de Janeiro, em Belém e Manaus. James, inclusive, contou com problemas de saúde; contraiu varíola, no Rio de Janeiro – ficou, temporariamente, cego. Mais de uma vez, pensou em desistir.

Apesar de decepcionado com os interesses comerciais-escravistas da expedição, haja vista o interesse dos Estados Unidos de transportar sua população negra para a Amazônia, William James conseguiu transformar a experiência em um processo enriquecedor de aprendizado. As impressões deixadas por James, de sua experiência, no Brasil, revelam seu esforço para livrar-se das viseiras impostas pela abordagem colonialista; sua família acreditava que “a escravidão era um erro monstruoso e para sua destruição valiam os melhores esforços humanos.”

A viagem ao Brasil teve impacto marcante em sua vida pessoal; sendo possível traçar a elaboração de ideias, posições filosóficas e morais que, mais tarde, ganhariam importância decisiva na formulação de seu universo filosófico e ético.

James chegou a afirmar que a experiência foi útil, inclusive, para ele se conscientizar das suas fragilidades. Mantendo sua independência intelectual e consciência crítica, seu olhar empático sobressai, em seus registros, como “viajante dos trópicos”, que também expressam mau humor, irritação, dúvida, tédio e indisposição – “Nem pessimista nem otimista, James parece ter viajado apreciando a descoberta de outras formas de viver e pensar.”

James teve a oportunidade de se sensibilizar com dimensões sociais e culturais radicalmente desconhecidas. Teve que buscar dentro de si, a capacidade de se desvencilhar de conhecimentos adquiridos socialmente, colocando em exercício, toda a sua capacidade de mergulhar num novo universo, expondo-se a novas experiências. Sua motivação pessoal estava na direção contrária do objetivo da expedição.

Pág. 79

Além do seu notável encantamento com as belezas tropicais, ele demonstrou profundo interesse por entender como as pessoas locais eram. Em suas anotações, nas cartas que escrevia para sua família; revela que precisou aprender ferramentas afetivas que lhe possibilitassem praticar as sutilezas de uma sociabilidade, notadamente, marcada por uma empática convivência social.

O discurso coisificador e cientificizante do líder da expedição constrastava com a peculiar habilidade que William James possuía, de empatizar com o mundo que o cercava, relativizando os códigos culturais.

“[…] Entre as dores e privações de uma viagem aos trópicos, nos anos de 1860, residem, nos escritos de James, os traços de uma primeira descoberta do outro, a quem ele, não sem esforço, amigavelmente, apreciou.”

Pág. 84

Desde o início, da viagem, James referiu-se à experiência como profunda demais para não se tornar proveitosa, certo de que adquiria sabedoria, buscando aproveitar as circunstâncias para aprender a se conhecer melhor.

“Antes de partir, eu havia dito a mim mesmo, William James, nesta excursão você vai aprender a conhecer a si mesmo e a seus recursos um pouco mais intimamente do que você conhece agora e vai voltar com seu caráter, consideravelmente, desenvolvido e estabelecido […] Bem, por que não me relacionar com minhas deficiências? Ao aceitá-las, suas ações deixam de estar em conflito com suas faculdades e, desta forma, você fica muito mais próximo da paz de espírito.”

— William James, pág. 106

O pensamento de William James anexado, ao início deste texto, numa frase de Emilia Lahti, nos lembrando que existe uma força desconhecida dentro de nós, que se torna revelada diante das adversidades, quando decidimos agir com coragem, resiliência e persistência, é um convite à reflexão, certamente, vinculado ao que ele sentiu quando a viagem ao Brasil estava terminando.

“[…] Durante os últimos dois meses, tenho agradecido aos céús por ter ficado aqui e persistido na empreitada […]”

— William James, pág. 136

O jovem extrovertido, gentil e elegante, estudante de medicina, membro de uma família da elite, lançou-se, na maior parte do trajeto, entre as cidades do Rio de Janeiro, Belém e Manaus, de canoa, a cavalo ou a pé. Durante os oito meses de estadia [1865-1866], no Brasil, teve momentos de angústia e apatia que quase lhe fizeram desistir, mas, determinado a fazer da experiência uma oportunidade significativa de aprendizado, para sua trajetória de vida, após um período de depressão e desesperança, ingressou numa fase de renascimento.

Ampliando olhares, descobrindo novas perspectivas, revelando uma profunda capacidade de empatizar com o que encontrava, sobretudo com as populações nativas, William James desenvolveu novas formas de viver e pensar que fizeram da experiência, uma experiência libertadora.


Livro: O Brasil no Olhar de William James – Cartas, diários e desenhos [1865-1866]

Organização: Maria Helena P. T. Machado (Edusp)

Os escritos de William James, datados de 1865 a 1866, reproduzidos na obra, foram transcritos a partir dos originais existentes no Houghton Library, da Univesidade de Harvard.

Pela primeira vez, o “Diário do Brasil” foi estabelecido em sua íntegra .

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s